quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

suspenso

por diversas vezes deixei-me cair. deixei-me cair e não me esforcei por levantar, por acordar, por contrariar a gravidade. sinto que já não sobra nada de mim, talvez apenas o invólucro de um ser humano desprezível. talvez o vazio me defina. há quanto tempo deixei de viver? há quanto tempo me deixei apagar? as perguntas são mais que as respostas e a luz, inexistente. sou uma criança perdida num quarto escuro à espera que nasça o sol no limiar da janela. e como quem tem medo do bicho papão, corro para a cama, escondo-me debaixo dos lençóis e embalo-me a mim mesma na ânsia que tudo passe, que qualquer coisa passe, que algo mude. não sei se vivo ou se me deixo existir. não sei se luto ou se deixo o tempo avançar. não sei se sou um fracasso ou se me mantenho viva por ter coragem para tentar. anular-me, virar pó... quero ser nada para poder ser tudo. quero ser algo... ser eu. mas já nem sei o que isso é. haverá fado mais tenebroso que perdermo-nos de nós mesmos? preciso de algo. preciso de mim.